Salve linda canção negra cearense

Garota, não vá para a Califórnia.

Você já ouviu Luiza Nobel cantando Califórnia Neva, do compositor cearense Caiô? se não, será difícil você, como eu, não se arrepiar. O encontro da interpretação do furacão Luiza com a canção-hino de Caiô, é dos mais impactantes da música cearense recente. Califórnia Neva dialoga com a clássica Terral, de Ednardo, no seu sentido de convocação, chamamento e de declarar seu amor à terra, ao Ceará. Enquanto Ednardo diz: “Eu sou a nata do lixo/eu sou o luxo da aldeia/eu sou do Ceará”, nossa afirmação de orgulho contestador, Caiô faz uma reafirmação da condição alencarina: “O Ceará não tem primavera, Amor“. Longe geograficamente do sonho e destino de “ser star”, como em De Repente, Califórnia (Lulu Santos/Nelson Motta, 1982), a voz de Luiza Nobel conclama que “a felicidade está na nossa terra”. A versão do autor ao lado de Felipe de Paula, em projeto do Teatro Máquina, “Pequenos Trabalhos não são Trabalhos Pequenos” (2012), disponível no YouTube,  já mostrava todo o potencial e beleza da canção. 

Luiza Nobel, Caiô e sua banda Outragalera e Arquelano são artistas cearenses que estão despontando na música

Luiza, Caiô e sua banda Outragalera, assim como Benjamin Arquelano, Lua e muitos(as) outros(as) artistas fazem a música cearense com a identidade do nosso tempo, uma moçada que produz e segura a onda das intempéries. Ela acaba de lançar nas plataformas a dançante Estamos Bem, uma canção sobretudo de resistência. E vem mostrando, mesmo nos palcos virtuais da pandemia, o vigor dos grooves,  a incandescência que pulsa sob os beats das negra melodias.  

Desde os primórdios, a música brasileira e sua afirmação como tal se nutriu das raízes afro. Do lundu, maxixe, batuque, samba. Na contemporaneidade, traduz as agruras do tempo com  rap, funk, hip hop. Esfuziante, O Sol em Peixes, de Lua, co-produzida por Omulu, ergue a gira de Itapuã à Praia de Iracema. Uma presença que nunca foi sutil, mas que remete poeticamente ao verso “Você não viu/ mas sempre estive aqui”, de Arquelano em  Estava, single lançado em 2019.

Essa geração de artistas segue à risca o verso “Precisamos contar nossa história”, da canção Notre Histoire, do vizinho pernambucano Zé Manoel em seu novo e belo disco, Do Meu Coração Nu, parceria dele com Stephane San Juan, um presente neste novembro consciente.

Para assistir Califórnia Neva:

(Luiza Nobel interpreta Califórnia Neva, de Caio, em junho de 2019, no Teatro do Dragão do Mar nas Audições do processo seletivo do Laboratório de Música do Porto Iracema das Artes.)

Show Preta Punk, de Luiza Nobel, no Cineteatro São Luiz:

Califórnia Neva, apresentada pelo autor, Caiô, em versão acústica, com Felipe de Paula, em projeto do Teatro Máquina.

Arquelano – single Estava/Ponto

https://link.tospotify.com/DTBn6vZzibb

Lua – Sol em Peixes

Álbum de Zé Manoel

Outras histórias (quase) não contadas 

O canto negro moldou a música popular no século XX, e continua a referenciar nossos dias. Se a linha do tempo do rock and roll, como apontou Roberto Muggiatti em seu livro Rock, o Grito e o Mito (Editora Vozes, 1974), tem seu marco inicial no grito do escravo nas plantações de algodão no sul dos Estados Unidos; engendrou o blues, e desaguou no rock and roll dos anos 50, a história de Sister Rosetta Tharpe (1915-1973), guitarrista, cantora e compositora, pode ser narrada na primeira estação dessa longa viagem da música pop.

Mas quem já ouviu o som da guitarra e da voz magnífica de Sister Rosetta? por que raramente é citada ao lado dos grandes criadores do rock and roll, pelo menos nas bandas de cá, em que o panteão dos pioneiros ainda é ocupado somentes pelos nomes de Chuck Berry, Little Richard, Jerry Lewis, Bill Haley, Elvis Presley e tantos outros homens?

Pois, antes tarde do que jamais. Está tudo lá, no documentário de Mick Csaky, The godmother of rock and roll : Sister Rosetta Tharpe (BBC, 2011). E disponível no YouTube (link com legenda em português de  https://youtu.be/FKK_EQ4pj9A no canal de Claudia Assef, Music Non Stop – o filme foi apresentado numa sessão no Centro Cultural São Paulo no WME – Women Music Event de 2017).

Um dos momentos mais arrebatadores é quando Rosetta, convidada  pelo produtor Chris Barber, se apresenta numa estação de trem de Manchester, Inglaterra, em 1964, certamente marcando para sempre quem viveu aquele dia ouvindo a esfuziante Didn’t It Rain, acompanhada pelas palmas ritmadas da plateia.

Para Bob Dylan, ela era “Divina”. É possível atestar isso, ouvir a própria voz de Dylan no documentário, que teve como consultora a autora da biografia de Sister Rosettta, a professora Gayle Wald (Shout, Sister, Shout!:  The Untold Story of Rock-and-Roll Trailblazer Sister Rosetta Tharpe, Beacon Press, 2007). 

É estranho como uma performer extraordinária, que aos 23 anos, deixava as apresentações da igreja, onde já demonstrava seu virtuosismo cantando e tocando guitarra, para gravar em Nova York, pela Decca Records, e tendo inspirado de Elvis a Johnny Cash e o próprio Chuck Berry, seja pouco citada e sua história não contada, como diz o título do livro. 

Rosetta, que foi superstar do gospel e do blues nas décadas de 30, 40 e 50, só chegou ao Rock and Roll of Fame em 2018! Na cerimônia de abertura, foi homenageada pela fabulosa Brittany Howard, do Alabama Shakes, da mesma linhagem, podemos dizer assim, de cantoras-instrumentistas americanas. Nesse link, Brittany canta com sua guitarra That´s All:

https://www.rockhall.com/inductees/sister-rosetta-tharpe

Mona Gadelha @mona_gadelha

Cantora, compositora, jornalista. Coordenadora do Laboratório de Música do Porto Iracema das Artes. Participou do disco “Massafeira” com sua música “Cor de Sonho”, lançou ao longo da carreira sete discos. Formada em Comunicação Social e mestra em Comunicação pela UFC.